Retilínea, uniforme e precisa,
cortando o coração da metrópole em seu rumo certeiro ao progresso. Cravejada
entre os mais exuberantes arranha-céus e atravessando quase 3 km em meio ao concreto,
ela reina absoluta. Centro turístico, comercial e de entretenimento, tudo junto
e ao mesmo tempo, sem dar margem a qualquer curva que seja. Ora, mas não é só
de certezas e lugares comuns que vive a Paulista.
Com pouco mais de 5 minutos de
caminhada se pode ver brotando em suas esquinas e calçadas esses estranhos
caixotes. Abarrotados de propagandas, anúncios, manchetes e novidades, do dia,
do mês, ou até mesmo do ano, eles trazem essa promessa de certezas tão breves e
descartáveis quanto o papel que se folheia e logo se joga fora. Mas não, não é
só de lugares comuns e promessas breves que vive a Paulista.
Os olhos que ali chegam desesperados em busca do
tal fato e da tal atualidade, cada vez mais fugazes nesses tempos de
angustiantes tecnologias, não percebem o tamanho de sua cegueira. Arrogantes e
impacientes, não veem o universo que lhes aguarda nos quatro cantos daqueles
caixotes, rompendo certezas, pressas e horários, num convite difícil de
recusar. Ora, não é só de fatos cotidianos e novidades que vivem as bancas da
Paulista.
Em um destes muitos cantos se
pode encontrar, sentado impaciente, calado e sagaz, os olhos de um bruxo
esperando a próxima vítima de sua ironia, muito bem registrada nos receituários
de um médico alienista. Ao seu lado descansando em sua sabedoria milenar está
um velho chinês e suas lições, que de autoajuda (essa irritante moda do século
XXI) não tem nada, mas consegue fazer da guerra uma arte.
Não é preciso procurar muito mais
para logo encontrar ali um pedacinho da Itália renascentista, e entender que de
políticos maquiavélicos o mundo sempre esteve cheio. Para os menos afeitos a
sabedorias e ensinamentos antigos pode-se encontrar logo mais à frente a
detalhada natureza do homem, descrita pelos olhos certeiros de um francês, e
germinando nua e crua sob o suor do trabalho tão necessário.
Ah! E por que não os saborosos
ares latino-americanos, narrados impecavelmente nas memórias tristes de um
senhor colombiano à procura de paixão, ou então nos poéticos sonetos, que não
deixam dúvidas da beleza do amor de um memorável chileno.
Pena que todos estes, e mais
vários outros senhores e senhoras, acabam quase sempre esquecidos. As curvas e
nuances de suas histórias não parecem combinar com o tom certeiro daquela
avenida sobre a qual caminha toda uma geração escondida em seus tristes
confortos. Bombardeadas pelos ritmos rápidos de seus fones de ouvidos e vidradas
às corridas de palavras e imagens em suas minúsculas telas, muitas das pessoas
que por lá transitam acabam se acomodando em ilusões fugazes.
Ora, mas quem poderá afirmar com
certeza quais caminhos são traçados ao longo da retilínea Avenida Paulista?
Afinal de contas, não é só de progresso e de pressa que vive essa gente da pauliceia.
Pelo menos é com isso que contam os caixotes da paulista, já que,
definitivamente, não é apenas de lugares comuns que se vive aquela avenida.
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