Quanto vale um pensamento? Qual o peso de uma ideia? O cheiro de uma divagação? Essas e outras perguntas sem respostas são o que traduzem um pouco do espírito deste blog. Pensamentos, poemas, relatos e divagações traduzidas em textos bem ou mal escritos, com ou sem sentido, simplesmente para aqueles que curtem passar o tempo enquanto as palavras fluem

domingo, 14 de abril de 2013

A incrível batalha



A brisa refrescante, o toque sedoso das nuvens, os raios de sol cortando o horizonte num calor que amaciava a pele, o perfeito cenário para uma viagem que ia se fazendo inesquecível. Mas eis que o sereno voo se depara com o incompreendido, e a liberdade de até então parece sufocar-se. Infortúnio causado por uma estranha corda que se prende ao tornozelo direito e, de súbito, puxa o fugaz corpo ao chão. Logo o deserto de areia espalha seu toque por todo o corpo, num despertar pouco suave, como uma dolorosa dose de realidade. Poderia ser mais uma obra de Fellini, ou um devaneio surrealista, mas o incômodo daquela corda se revelaria mais real que o estranho cenário parecia sugerir.

Sem ao menos ter tempo para se levantar, o homem, devidamente encaixado em seu terno e sua calça de trabalho, continua sendo puxado. Em meio ao tapete de areia que lhe roçava todo o corpo, ele pôde aos poucos perceber para onde aquela corda o levava, uma construção cilíndrica, com o teto em forma de abobada, e um portão de entrada vistoso com quase 4 metros de altura, tudo com um estranho ar de um templo religioso. 

Sem conseguir se soltar da corda a tempo, ele logo se viu dentro do prédio incomum que jazia solitário em meio ao imenso deserto. Os portões agora se fechavam, e quando se deu conta de que a corda o levava, cada vez mais intensamente, para uma entrada onde não se podia ver o fim do outro lado, seu desespero aumentou. Então, percebeu uma pedra grande que, fixada no centro da cilíndrica construção, lhe serviu de última salvação.

Agarrado com uma vontade que transpunha seus limites corpóreos e parecia querer fundir toda sua existência àquele frio bloco mineral, ele conseguiu livrar-se da corda, ainda que ao custo de seu sapato direito. O alívio logo veio, mas o corpo, ainda enrijecido pelo susto, ia se dando conta aos poucos do estranho cenário onde havia parado. Ao rodear o local com o olhar, logo se deu conta de que todo o interior do prédio não era mais que um grande espelho, refletindo sua singela silhueta, para onde quer que olhasse. Apenas ao fundo, próximo a onde a corda o tentara levar, havia duas outras entradas. 

De um lado, uma entrada demasiado pequena, por onde ele mal passaria ainda que usasse de toda sua flexibilidade e esforço. De outro, uma entrada no formato de um estranho corpo que, tal qual a primeira, ele certamente mal conseguiria passar. Tudo isso somado ao assustador vazio que jazia do outro lado das duas passagens, contribuiu para que ele logo pensasse em alternativas antes de se sucumbir ao desespero e arriscar algum dos caminhos disponíveis.

Com o olhar percorreu toda a sala, buscando minuciosamente cada canto e detalhe na procura de alguma saída para aquela situação. Em pouco tempo suas esperanças começam a se esvair, mas antes de se esgotarem totalmente ele percebe que a pedra que o salvara começa a mudar de forma. Aos poucos um espelho vai surgindo do meio da rocha e assumindo seu espaço enquanto essa se desmanchava. Com o formato retangular, a peça tinha a mesma altura do homem, que logo percebeu como seu reflexo estava diferente naquele espelho central.

Diferente das outras, a imagem refletida não se movia e apresentava um sorriso estranhamente assustador. O homem então se aproximou do espelho e, percebendo que a imagem não respondia às suas ações, sentiu um calafrio percorrendo sua espinha. Ao chegar a um palmo de distancia do espelho, seu estranho reflexo começou então a se mover e lhe encarar. Mais do que medo, o homem logo viu que, por trás de seu estranho reflexo, jazia o brilho do que parecia ser uma chave, sua única chance de saída dali. Ele então se deu conta da mais dura batalha que iria ter que travar ali, a incrível disputa dele contra ele mesmo.