A brisa refrescante, o toque
sedoso das nuvens, os raios de sol cortando o horizonte num calor que amaciava
a pele, o perfeito cenário para uma viagem que ia se fazendo inesquecível. Mas
eis que o sereno voo se depara com o incompreendido, e a liberdade de até então
parece sufocar-se. Infortúnio causado por uma estranha corda que se prende ao
tornozelo direito e, de súbito, puxa o fugaz corpo ao chão. Logo o deserto de
areia espalha seu toque por todo o corpo, num despertar pouco suave, como uma
dolorosa dose de realidade. Poderia ser mais uma obra de Fellini, ou um
devaneio surrealista, mas o incômodo daquela corda se revelaria mais real que o estranho cenário parecia sugerir.
Sem ao menos ter tempo para se
levantar, o homem, devidamente encaixado em seu terno e sua calça de trabalho,
continua sendo puxado. Em meio ao tapete de areia que lhe roçava todo o corpo,
ele pôde aos poucos perceber para onde aquela corda o levava, uma construção
cilíndrica, com o teto em forma de abobada, e um portão de entrada vistoso com
quase 4 metros de altura, tudo com um estranho ar de um templo religioso.
Sem conseguir se soltar da corda a
tempo, ele logo se viu dentro do prédio incomum que jazia solitário em meio ao
imenso deserto. Os portões agora se fechavam, e quando se deu conta de que a
corda o levava, cada vez mais intensamente, para uma entrada onde não se podia
ver o fim do outro lado, seu desespero aumentou. Então, percebeu uma pedra
grande que, fixada no centro da cilíndrica construção, lhe serviu de última
salvação.
Agarrado com uma vontade que
transpunha seus limites corpóreos e parecia querer fundir toda sua existência
àquele frio bloco mineral, ele conseguiu livrar-se da corda, ainda que ao custo
de seu sapato direito. O alívio logo veio, mas o corpo, ainda enrijecido pelo
susto, ia se dando conta aos poucos do estranho cenário onde havia parado. Ao
rodear o local com o olhar, logo se deu conta de que todo o interior do prédio
não era mais que um grande espelho, refletindo sua singela silhueta, para onde
quer que olhasse. Apenas ao fundo, próximo a onde a corda o tentara levar,
havia duas outras entradas.
De um lado, uma entrada demasiado
pequena, por onde ele mal passaria ainda que usasse de toda sua flexibilidade e
esforço. De outro, uma entrada no formato de um estranho corpo que, tal qual a
primeira, ele certamente mal conseguiria passar. Tudo isso somado ao assustador
vazio que jazia do outro lado das duas passagens, contribuiu para que ele logo
pensasse em alternativas antes de se sucumbir ao desespero e arriscar algum dos
caminhos disponíveis.
Com o olhar percorreu toda a
sala, buscando minuciosamente cada canto e detalhe na procura de alguma saída
para aquela situação. Em pouco tempo suas esperanças começam a se esvair, mas
antes de se esgotarem totalmente ele percebe que a pedra que o salvara começa a
mudar de forma. Aos poucos um espelho vai surgindo do meio da rocha e assumindo
seu espaço enquanto essa se desmanchava. Com o formato retangular, a peça tinha
a mesma altura do homem, que logo percebeu como seu reflexo estava diferente
naquele espelho central.
Diferente das outras, a imagem
refletida não se movia e apresentava um sorriso estranhamente assustador. O
homem então se aproximou do espelho e, percebendo que a imagem não respondia às
suas ações, sentiu um calafrio percorrendo sua espinha. Ao chegar a um palmo de
distancia do espelho, seu estranho reflexo começou então a se mover e lhe
encarar. Mais do que medo, o homem logo viu que, por trás de seu estranho
reflexo, jazia o brilho do que parecia ser uma chave, sua única chance de saída
dali. Ele então se deu conta da mais dura batalha que iria ter que travar ali, a
incrível disputa dele contra ele mesmo.