Quanto vale um pensamento? Qual o peso de uma ideia? O cheiro de uma divagação? Essas e outras perguntas sem respostas são o que traduzem um pouco do espírito deste blog. Pensamentos, poemas, relatos e divagações traduzidas em textos bem ou mal escritos, com ou sem sentido, simplesmente para aqueles que curtem passar o tempo enquanto as palavras fluem

domingo, 13 de maio de 2012

Pescador de Ilusões



Pesca pescador,
de ambições mesquinhas,
dúvidas enfadonhas
e desilusões à deriva.
Pesca pescador,
neste mar do pós-moderno,
onde figuram utopias
a beira do abismo,
e no horizonte a imensidão
do azul vazio.
Pesca pescador,
à procura daquilo
que a paciência sozinha não é capaz de encontrar,
e tampouco sua rota
é capaz de alcançar.
Pesca pescador,
E quem sabe na ponta do anzol
Talvez apareça,
Capturada na mais obscura das profundezas,
A ilusão de uma vã certeza
Só não se esqueça de ficar de olho na maré,
Que de súbito tudo engole,
Tornando sua empreitada
Mais uma crônica desiludida
Como a do homem que tudo pesca
Enquanto sua história passa despercebida










No meio do caminho...uma praça

O calor do sol se esparramava pelo cimento e como que numa ânsia se elevava pelo ar, espalhando o árido torpor que lhe secava o tronco num castigo lento e duradouro. Era a marca do que a natureza, passando pelo crivo do homem, exibia desgostosa. E não era a única, tampouco a primeira. E ali, sobre o gramado seco rodeado por aquele estranho tapete de cimento, espalhado com as mais diversas cores e texturas, jazia o fino tronco de uma árvore. Em seus primeiros anos de vida, ela nem sabia ao certo que tipo de árvore era e se um dia viria a se tornar vistosa e com frutos a carregar sob os galhos como as árvores que, por vezes, via em cartazes e propagandas ali por perto.
Passagem, era a melhor palavra para descrever sua vida naquele lugar. Rodeado de ruas, um concreto estranho pintado por listras entre as quais correm bufando e impacientes os blocos de metal chamados carros, seu espaço se resumia a um contorcido círculo de uma tranqüilidade quase mórbida. No chão onde se firmava, a grama verde preenchia um pequeno espaço da área da praça, destinada, nada mais, nada menos, do que para a passagem de pessoas. Foi então que a pequena árvore começou a se incomodar com algumas perguntas que lhe eram recorrentes em sua vida ali, fixada como um ponto perdido no concreto sufocando-se aos poucos pelo calor.
A começar pelo gramado sobre o qual se erguia, um verdadeiro tapete cuja vivacidade se desbotava como o verde da grama ressecada. Era o ar pesado, impregnado da negra fumaça que escapava dos carros, subjugando-a a sua angustiante sina. Tão densa quanto a fumaça que abafava o ar ali era a prepotência humana, penetrando por entre os sulcos e circulando dentro das gramíneas, que tentavam exalá-la com amargo desafeto num pedido de misericórdia. Ora já não bastava ter cercado a grama com o concreto sufocante, os homens ainda a utilizavam de mero enfeite, um capricho para enfeitar um pouco mais “seu” espaço urbano. E ela só não sucumbia graças aos jatos de água automáticos que diariamente revigoravam seu verde, a essa altura tão artificial quanto o ego humano se importava que ela fosse.
Mas as inquietações da pequena árvore iam além do gramado e, passando pelas fronteiras das ruas e pelos passeios, chegavam aos prédios. Mármores, pedras, vidros e concreto, muito concreto, era a paisagem que lhe assustava. Nunca entendeu muito bem como e nem por que tamanha ambição havia tomado conta dos homens. A cada fachada vistosa e prédios portentosos se projetando ainda mais alto para o céu, o singelo tronco se sentia não menos sufocado do que ameaçado pelas desconhecidas intenções que se mascaravam naquele cenário. Afinal de contas qual seria o lugar do homem senão entre o intangível do céu e a firmeza da terra?
E enquanto refletia sobre tantas questões, sua existência lhe parecia simplesmente indiferente naquele mundo. Sobre o calor torturante e o ar que aos poucos lhe sufocava como um lento veneno, a árvore sobrevivia tentando encontrar algo naquele desolador cenário que, se não respondesse suas dúvidas, ao menos lhe mostrasse algo em que acreditar. Foi então que se deu conta, por um breve intervalo de tempo, que por aquela praça estavam passando algumas pessoas. Como sempre indiferentes, como sempre correndo, aqueles transeuntes tinham a dádiva de poder se locomover, que tanto invejava a aprisionada árvore. Mas por alguns instantes eram como ela e a pouca vegetação que sobrevivia ali, um insignificante ponto naquele espaço rodeado por carros, prédios e as mais obscuras e exageradas ambições.
Alguns carregavam bolsas nas costas, outros nos ombros, alguns conversavam concentrados com um pequeno aparelho que ela havia descoberto há pouco tempo se chamar celular, outros, por sua vez, sem carregar nada apenas seguiam os ritmados passos. Curiosamente estavam sempre atentos àquelas luzes nos cantos das ruas que pareciam controlar a liberdade de locomoção tão almejada por ela. Notou bem como que, sem exceção, os olhos daqueles pedestres pareciam distantes, como se aprisionados a vários pensamentos e preocupações que, no fundo, faziam as pessoas indiferentes a elas mesmas. Eis então que o pensamento mais assustador e estranho lhe aflige: Entre o céu e a terra não seria o lugar do ser humano a prisão criada por sua própria ambição? E assim se foi mais um dia daquele inocente tronco, entre reflexões e indagações daquele ser e sua indiferente existência. Afinal a praça era apenas uma passagem de pessoas, mero detalhe no caminho das ruas e prédios a verdadeira razão de ser do espaço urbano, essa perversa mascara da ambição humana.

Os sorrisos que não percebemos

O relógio bate 7 horas, o orvalho ainda um pouco frio da manhã marca a paisagem, na calçada as folhas balançam, titubeando ao sabor do vento, na rua os carros passando como insetos suspirando seu ar de blasé matinal. Mas não há tempo para essas pequenas sutilezas da vida, transbordada de significados por despertar, e logo a pressa toma conta. A mochila nas costas, poucas horas de sono e meia dúzia de pensamentos tilintando na cabeça. A passos ligeiramente rápidos o, quase que já desenhado trajeto, fora sendo percorrido e na saída do portão uma rápida parada para conferir a caixa de correio do prédio, mais uma dentre as tantas sutilezas que nos passam despercebidas. Como era de se esperar a caixa estava cheia destes documentos de natureza, no mínimo, curiosa, as cartas. Contas de cartão de crédito, de luz, água, telefone, de assinaturas de jornais e revistas e até mesmo de colégios (sim até para adquirir cultura e educação temos que pagar!). Isso tudo sem mencionar as infindáveis propagandas que vão desde o mais concreto produto ofertado, como carros e roupas, até os mais absurdos sonhos e promessas de felicidade que, é claro, não poderiam ser de graça. Por algum momento e em alguma medida toda essa papelada se converte neste singelo objeto, a carta... Mas, novamente não há tempo para refletir sobre essas sutilezas e a vida segue todos os dias, o mesmo e viciante ciclo de ir e vir passando sempre pelo portão de casa rumo aos mais diversos e repetidos destinos.
Eis a rotina, um assunto que todos sabem de sobra mas que, paradoxalmente, por causa dela mesma sequer podem refletir sobre isso. E mesmo quando tentam se aventurar por reflexões e até previsões acerca do que pode mudar no dia a dia as pessoas se esquecem de algumas (importantíssimas) sutilezas. Diante disso é que cabe refletir aqui sobre um evento que permeou desde os pensamentos mais racionais até as emoções mais impensáveis: as eleições. Por meses a população discutiu sobre políticas públicas, estado, impostos, moralismos, esquerdismos e direitismos, para não mencionar o trio saúde, educação e salário mínimo. Muito se falou e muito se fez em prol de determinados projetos políticos. Parecia até que, de fato, a rotina viria a ser alvo de reflexões para, quem sabe, a sociedade conseguir progredir, conseguir traçar sua felicidade e satisfação com a mesma facilidade com que as pessoas traçam suas rotas diárias. Mas, infelizmente, ficamos somente no “parecia”, e logo as discussões foram tomando o rumo da ignorância literalmente traduzida na perseguição gratuita e cega das famosas “polêmicas”, como se em política mocinho e bandido fossem características simplesmente aplicáveis ao bel prazer das campanhas eleitorais. A tão aclamada internet com todo seu potencial libertário serviu apenas para mostrar que uma tecnologia, por mais inovadora e transformadora do convívio social que seja, não é por si só suficiente para transformar a política. Por vezes ela ainda acaba refém de atrocidades intelectuais sem precedentes: Já não se trata mais de mentiras e persuasão em prol de um ou outro candidato, o que está em jogo são construções grotescas que sequer beiram a realidade e circulam como verdadeiras pragas com a incrível prerrogativa de semear ignorância, preconceitos e ressuscitar fantasmas ideológicos que a razão já fez questão de sepultar.
Enquanto a população, imatura para conseguir discutir e explorar as reais possibilidades da internet, se afundava em discussões moralistas e religiosas os rumos da disputa eleitoral eram traçados. Com isso a sociedade quase que se polarizou, exaltando ânimos como se uma verdadeira revolução estivesse em jogo e uma das opções representasse o atraso e a outra o progresso. Pra variar alguns pequenos detalhes foram deixados de lado...eis novamente a rotina e sua incrível capacidade de tornar as pessoas míopes.  Ora, voltemos então às cartas: Dia vai dia vem e lá estão elas, todo mês sempre marcando presença nas caixas de correio, as vezes até são entregues dentro de casa onde acabam ficando guardadas nas gavetas ou mesmo encima de móveis nos esperando com seu sorriso sarcástico.
De fato não lhes faltam motivos para sorrir. Afinal de contas enquanto as pessoas se preocupavam em discutir em quem votar, em quais os projetos (fisiológicos) de governo confiar, para quem divulgar seu apoio incansavelmente, as cartas continuavam chegando com suas cobranças, indiferentes a toda essa disputa. Ora, bancos, empresas de telefonia, de televisão a cabo, de internet, grandes jornais e revistas além dos inúmeros boletos e parcelas dos tão exaltados crediários, todos tinham motivos de sobra para comemorar as eleições, independente de qual projeto político fosse vitorioso. Basta se perguntar, caro leitor, quantos destes bancos “feitos para você”, financiam as milionárias campanhas políticas e, certamente, recebem isso em troca. Quantos jornais e grandes empresas de comunicação (as mesmas que decidem o valor e a programação da “sua” TV por assinatura, da “sua” internet e do “seu” telefone) não têm como “amigos políticos” de seus donos os mais diversos candidatos e membros das famosas coligações.
Já se passaram quase dois meses e praticamente nada mudou nas rotinas: o mesmo vai e vem, a mesma falta de segurança pública, de saúde, de educação, o mesmo mínimo, também chamado de salário... E as cartas continuam lá, em sua prontidão esperando a inexorável sina dos meros mortais a pagar suas contas, juros, taxas, inflações e porcentagens. Toda uma infinidade de valores para relembrar o verdadeiro sentido que a vida adquiriu para aqueles que fazem de sua carne e osso um produto vendido sempre à vista e com desconto. E para os próximos 4, 8, 12 anos, o que esperar? Nada muito diferente do que já foi mencionado. Enquanto isso lucros e cifras exorbitantes dos bancos, grandes lojas, empresas de telecomunicações e todos os demais “correspondentes” continuam lá em seus patamares estratosféricos trazendo aos mortais aqui de baixo suas sorridentes cartas. Aos políticos (eleitos e não eleitos, situação e oposição) cabe apenas o papel que sempre exerceram impecavelmente bem: cuidar de seus “amigos correspondentes”...
 Mas enfim, de que adianta perder tempo com tantas divagações? Já é dada a hora,de trabalhar, a  rotina chama e não pode parar, não há tempo a perder com cartas, estes pequenos detalhes do cotidiano. Lá fora na rua os carros continuam a passar, e de dentro do prédio a caixa do correio, obrigada a fazer parte de tudo isso, guarda as cartas. Em meio ao barulho das árvores e a correria do cotidiano dorme a esperança de um dia roubar-lhes o sorriso. Até lá resta ao escritor aguardar (em vão) seu candidato aparecer nem que seja só para dar uma desculpa, dessas que eles sabem muito bem inventar.