O calor do sol se esparramava pelo cimento e como que numa ânsia se elevava pelo ar, espalhando o árido torpor que lhe secava o tronco num castigo lento e duradouro. Era a marca do que a natureza, passando pelo crivo do homem, exibia desgostosa. E não era a única, tampouco a primeira. E ali, sobre o gramado seco rodeado por aquele estranho tapete de cimento, espalhado com as mais diversas cores e texturas, jazia o fino tronco de uma árvore. Em seus primeiros anos de vida, ela nem sabia ao certo que tipo de árvore era e se um dia viria a se tornar vistosa e com frutos a carregar sob os galhos como as árvores que, por vezes, via em cartazes e propagandas ali por perto.
Passagem, era a melhor palavra para descrever sua vida naquele lugar. Rodeado de ruas, um concreto estranho pintado por listras entre as quais correm bufando e impacientes os blocos de metal chamados carros, seu espaço se resumia a um contorcido círculo de uma tranqüilidade quase mórbida. No chão onde se firmava, a grama verde preenchia um pequeno espaço da área da praça, destinada, nada mais, nada menos, do que para a passagem de pessoas. Foi então que a pequena árvore começou a se incomodar com algumas perguntas que lhe eram recorrentes em sua vida ali, fixada como um ponto perdido no concreto sufocando-se aos poucos pelo calor.
A começar pelo gramado sobre o qual se erguia, um verdadeiro tapete cuja vivacidade se desbotava como o verde da grama ressecada. Era o ar pesado, impregnado da negra fumaça que escapava dos carros, subjugando-a a sua angustiante sina. Tão densa quanto a fumaça que abafava o ar ali era a prepotência humana, penetrando por entre os sulcos e circulando dentro das gramíneas, que tentavam exalá-la com amargo desafeto num pedido de misericórdia. Ora já não bastava ter cercado a grama com o concreto sufocante, os homens ainda a utilizavam de mero enfeite, um capricho para enfeitar um pouco mais “seu” espaço urbano. E ela só não sucumbia graças aos jatos de água automáticos que diariamente revigoravam seu verde, a essa altura tão artificial quanto o ego humano se importava que ela fosse.
Mas as inquietações da pequena árvore iam além do gramado e, passando pelas fronteiras das ruas e pelos passeios, chegavam aos prédios. Mármores, pedras, vidros e concreto, muito concreto, era a paisagem que lhe assustava. Nunca entendeu muito bem como e nem por que tamanha ambição havia tomado conta dos homens. A cada fachada vistosa e prédios portentosos se projetando ainda mais alto para o céu, o singelo tronco se sentia não menos sufocado do que ameaçado pelas desconhecidas intenções que se mascaravam naquele cenário. Afinal de contas qual seria o lugar do homem senão entre o intangível do céu e a firmeza da terra?
E enquanto refletia sobre tantas questões, sua existência lhe parecia simplesmente indiferente naquele mundo. Sobre o calor torturante e o ar que aos poucos lhe sufocava como um lento veneno, a árvore sobrevivia tentando encontrar algo naquele desolador cenário que, se não respondesse suas dúvidas, ao menos lhe mostrasse algo em que acreditar. Foi então que se deu conta, por um breve intervalo de tempo, que por aquela praça estavam passando algumas pessoas. Como sempre indiferentes, como sempre correndo, aqueles transeuntes tinham a dádiva de poder se locomover, que tanto invejava a aprisionada árvore. Mas por alguns instantes eram como ela e a pouca vegetação que sobrevivia ali, um insignificante ponto naquele espaço rodeado por carros, prédios e as mais obscuras e exageradas ambições.
Alguns carregavam bolsas nas costas, outros nos ombros, alguns conversavam concentrados com um pequeno aparelho que ela havia descoberto há pouco tempo se chamar celular, outros, por sua vez, sem carregar nada apenas seguiam os ritmados passos. Curiosamente estavam sempre atentos àquelas luzes nos cantos das ruas que pareciam controlar a liberdade de locomoção tão almejada por ela. Notou bem como que, sem exceção, os olhos daqueles pedestres pareciam distantes, como se aprisionados a vários pensamentos e preocupações que, no fundo, faziam as pessoas indiferentes a elas mesmas. Eis então que o pensamento mais assustador e estranho lhe aflige: Entre o céu e a terra não seria o lugar do ser humano a prisão criada por sua própria ambição? E assim se foi mais um dia daquele inocente tronco, entre reflexões e indagações daquele ser e sua indiferente existência. Afinal a praça era apenas uma passagem de pessoas, mero detalhe no caminho das ruas e prédios a verdadeira razão de ser do espaço urbano, essa perversa mascara da ambição humana.
Passagem, era a melhor palavra para descrever sua vida naquele lugar. Rodeado de ruas, um concreto estranho pintado por listras entre as quais correm bufando e impacientes os blocos de metal chamados carros, seu espaço se resumia a um contorcido círculo de uma tranqüilidade quase mórbida. No chão onde se firmava, a grama verde preenchia um pequeno espaço da área da praça, destinada, nada mais, nada menos, do que para a passagem de pessoas. Foi então que a pequena árvore começou a se incomodar com algumas perguntas que lhe eram recorrentes em sua vida ali, fixada como um ponto perdido no concreto sufocando-se aos poucos pelo calor.
A começar pelo gramado sobre o qual se erguia, um verdadeiro tapete cuja vivacidade se desbotava como o verde da grama ressecada. Era o ar pesado, impregnado da negra fumaça que escapava dos carros, subjugando-a a sua angustiante sina. Tão densa quanto a fumaça que abafava o ar ali era a prepotência humana, penetrando por entre os sulcos e circulando dentro das gramíneas, que tentavam exalá-la com amargo desafeto num pedido de misericórdia. Ora já não bastava ter cercado a grama com o concreto sufocante, os homens ainda a utilizavam de mero enfeite, um capricho para enfeitar um pouco mais “seu” espaço urbano. E ela só não sucumbia graças aos jatos de água automáticos que diariamente revigoravam seu verde, a essa altura tão artificial quanto o ego humano se importava que ela fosse.
Mas as inquietações da pequena árvore iam além do gramado e, passando pelas fronteiras das ruas e pelos passeios, chegavam aos prédios. Mármores, pedras, vidros e concreto, muito concreto, era a paisagem que lhe assustava. Nunca entendeu muito bem como e nem por que tamanha ambição havia tomado conta dos homens. A cada fachada vistosa e prédios portentosos se projetando ainda mais alto para o céu, o singelo tronco se sentia não menos sufocado do que ameaçado pelas desconhecidas intenções que se mascaravam naquele cenário. Afinal de contas qual seria o lugar do homem senão entre o intangível do céu e a firmeza da terra?
E enquanto refletia sobre tantas questões, sua existência lhe parecia simplesmente indiferente naquele mundo. Sobre o calor torturante e o ar que aos poucos lhe sufocava como um lento veneno, a árvore sobrevivia tentando encontrar algo naquele desolador cenário que, se não respondesse suas dúvidas, ao menos lhe mostrasse algo em que acreditar. Foi então que se deu conta, por um breve intervalo de tempo, que por aquela praça estavam passando algumas pessoas. Como sempre indiferentes, como sempre correndo, aqueles transeuntes tinham a dádiva de poder se locomover, que tanto invejava a aprisionada árvore. Mas por alguns instantes eram como ela e a pouca vegetação que sobrevivia ali, um insignificante ponto naquele espaço rodeado por carros, prédios e as mais obscuras e exageradas ambições.
Alguns carregavam bolsas nas costas, outros nos ombros, alguns conversavam concentrados com um pequeno aparelho que ela havia descoberto há pouco tempo se chamar celular, outros, por sua vez, sem carregar nada apenas seguiam os ritmados passos. Curiosamente estavam sempre atentos àquelas luzes nos cantos das ruas que pareciam controlar a liberdade de locomoção tão almejada por ela. Notou bem como que, sem exceção, os olhos daqueles pedestres pareciam distantes, como se aprisionados a vários pensamentos e preocupações que, no fundo, faziam as pessoas indiferentes a elas mesmas. Eis então que o pensamento mais assustador e estranho lhe aflige: Entre o céu e a terra não seria o lugar do ser humano a prisão criada por sua própria ambição? E assim se foi mais um dia daquele inocente tronco, entre reflexões e indagações daquele ser e sua indiferente existência. Afinal a praça era apenas uma passagem de pessoas, mero detalhe no caminho das ruas e prédios a verdadeira razão de ser do espaço urbano, essa perversa mascara da ambição humana.
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