Os olhos inquietos, os braços e pernas gesticulando inocentemente e o semblante que não poderia ser mais ingênuo. Com seus pouco mais de 50 centímetros lá estava a singela figura a percorrer os subterrâneos da maior cidade brasileira. Sem se dar conta ele era mais naquela gigantesca minhoca de metal a cortar o subsolo também conhecida como metrô.
Sim, aquela máquina de aço devoradora de gente preparava-se para degustar seu mais novo aperitivo. Acostumada aos mais diferentes sabores, tipos e gêneros, a silhueta daquele jovem bebê no colo da mãe lhe parecia mais uma refeição de fácil digestão. Ah e como eram saborosas aquelas carnes novas ainda assustadas em seus primeiros passos pelos vagões! A ingenuidade, estranheza e até um certo deslumbre diante da panaceia tecnológica a lhes ditar o ritmo incessante e preciso da cidade, tudo isso realçava o sabor dos milhares de novos passageiros prestes a serem abatidos. Mas, com aquele bebê, a história seria indigesta.
O destino, que nunca foi de guardar muitas surpresas a quem se aventura pelos submundos do metrô, parecia haver guardado algo especial para aquele bebê. Até então, a história de quem passava pelos vagões seguia um roteiro de praxe: nas primeiras passadas um deslumbre quase virginal ao se aventurar pelo subterrâneo, nos dias seguintes uma leve sensação cansada de rotina que começa a crescer e, com o passar dos meses, o silêncio catatônico de quem tem muito a fazer e pouco para contar.
Mas os gestos espontâneos, a vivacidade no rosto a olhar para os lados sem outra preocupação senão a da descoberta, e um sorriso espontâneo a deslizar por baixo dos olhos brilhando faziam a minhoca de metal se revirar. E da voracidade insaciável do metrô brotava a inesperada semente de uma paz, até então esquecida pelos trilhos.
Sim, caro leitor, em meio aos que perambulam semi-acordados em seu universo de limites delineados por não mais que a extensão dos fones de ouvido existe espaço para uma paz legítima. Paz de quem não virou uma peça de silêncio já digerida como mais uma engrenagem insalubre do metrô, de quem se compromete ao silêncio da apreciação, de quem está disposto a encher-se de novas experiências e não a ser uma tábua rasa saturada do próprio vazio.
Foi então que a ingenuidade de uma criança ainda não digerida fez a minhoca de metal se arrepiar. Não pelo vento frio que começava a correr pelo terreno mais que revolvido da metrópole, mas pela lembrança que a cena fez brotar em um observador ali próximo. Este mesmo que agora escreve com saudades de uma ingenuidade simples e bela, essa pureza que nos é arrancada cotidianamente, privando-nos de sentir a descoberta incessante do passar dos dias para sermos digeridos como (mais) um composto insosso.
Naquela tarde a viagem de metrô acabou rápido para o bebê e sua mãe, que logo chegaram ao destino. A minhoca seguiu sua viagem incessante, mas agora estranhamente indigesta. E a este observador ficou a certeza de uma rota ainda incerta, o caminho das aventuras descompromissadas, dessas que não se deixam ser engolidas apenas para serem regurgitadas na próxima estação. Mas essa já é uma outra viagem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário